Elevado
I
Herr Heidegger segura para mim
a porta do elevador e
na subida até o quarto andar
me diz que estou fazendo
tudo isso errado. Que não é desse jeito que se vive, bombas e cisternas lacradas, que toda essa volta que eu dou em torno de mim mesmo é desnecessária; não sou um Mercúrio em sustenido; o porteiro faz trabalhos fortes de macumba para o dono do carro mais bonito da garagem e ri no interfone do ascensorista que mora logo ali
na esquina
há uma padaria dominada por evangélicos
furiosos.
Não senti o perfume dos inquilinos do 304, serpentes sensoriais se atracando
no reflexo do espelho em que nunca me penteei
(os pentes e seus sorrisos de plásticos dentes)
ao sair de casa por
pudor de que os cabos todos
de Narciso se rompessem e a caixa metálica
despencasse fazendo a curva
sinistra de alguma equação
da física newtoniana
até o fosso último do subsolo dos depósitos daqui. Corpo celeste de caixas de papelão, produtos químicos de limpeza, cloro, graxa, os uniformes dos porteiros enredados todos na explosão cósmica na estação final da Estrela. Herr Heidegger se ajeita no reflexo invisível da câmera de vigilância
e diz que me esperam em casa e
que o elevador não vai cair mais
fácil um 737 perder seu rumo
e se chocar contra Deus;
se arrepende pelo Holocausto e desaparece.
II
Se eu tivesse um gato
(se não viajasse muito, se não estivesse perdido
sempre entre ruas mal-pavimentadas,
se tivesse dinheiro para alimentá-lo)
estaria remoendo seu desespero felino por entre a mobília
aqui de casa, com olhos de Cortázar analisando a turba ensandecida que se amontoa com foices e pedras atrás da porta
que abro e recebo os parabéns
de Murilo Mendes e seus asseclas, Neruda e suas uvas de Tarapacá, os russos todos sentados no chão a mascar folhas de coca. Armas de fogo portadas por insensatos poetas românticos que se
implodem sem mais poder. Armas brancas nas mãos das escravas brancas de Rimbaud, todas cansadas dos rifles e
dos bacanais descontextualizados. Eurípedes só chega mais tarde, está preso no tráfego da Rio-Niterói; agora só anda de ônibus em prol da camada de ozônio, abram a champanhe e convidem aquela moça solteira para cá — todos a desenharemos
nua no centro da sala
no Louvre
pediu dois maços de cigarro e um incenso divino,
são muitas línguas as de vocês
todos a me perturbar ao mesmo tempo.
III
Isso tudo tem o gosto da Paranóia que se enrosca nos seus cabelos, milhões de caminhos microscópicos em direção à Costa do Marfim das manchas que salpicam seus ombros. Eu sou um risco branco em cima do cartão de crédito, pronto para
morrer de inanição e ser
inalado nos bancos dos
megalomaníacos jardins
secretos
— senis
bandas de jazz ressoando
no seu ideal de amante.
IV
Pronto para ser entronado rei da Suécia dos seus dedos, ganhar o Nobel de Literatura, meu escopo são duas folhas de rosto
em que escrevo
a lista de compras
do mês de Novembro;
me desculpo e, à francesa,
tomo a Bastilha do sumiço.
