27 August, 2008

Elevado

I

Herr Heidegger segura para mim
a porta do elevador e
na subida até o quarto andar
me diz que estou fazendo
tudo isso errado. Que não é desse jeito que se vive, bombas e cisternas lacradas, que toda essa volta que eu dou em torno de mim mesmo é desnecessária; não sou um Mercúrio em sustenido; o porteiro faz trabalhos fortes de macumba para o dono do carro mais bonito da garagem e ri no interfone do ascensorista que mora logo ali
na esquina
há uma padaria dominada por evangélicos
furiosos.
Não senti o perfume dos inquilinos do 304, serpentes sensoriais se atracando
no reflexo do espelho em que nunca me penteei
(os pentes e seus sorrisos de plásticos dentes)
ao sair de casa por
pudor de que os cabos todos
de Narciso se rompessem e a caixa metálica
despencasse fazendo a curva
sinistra de alguma equação
da física newtoniana
até o fosso último do subsolo dos depósitos daqui. Corpo celeste de caixas de papelão, produtos químicos de limpeza, cloro, graxa, os uniformes dos porteiros enredados todos na explosão cósmica na estação final da Estrela. Herr Heidegger se ajeita no reflexo invisível da câmera de vigilância
e diz que me esperam em casa e
que o elevador não vai cair mais
fácil um 737 perder seu rumo
e se chocar contra Deus;
se arrepende pelo Holocausto e desaparece.

II

Se eu tivesse um gato
(se não viajasse muito, se não estivesse perdido
sempre entre ruas mal-pavimentadas,
se tivesse dinheiro para alimentá-lo)
estaria remoendo seu desespero felino por entre a mobília
aqui de casa, com olhos de Cortázar analisando a turba ensandecida que se amontoa com foices e pedras atrás da porta
que abro e recebo os parabéns
de Murilo Mendes e seus asseclas, Neruda e suas uvas de Tarapacá, os russos todos sentados no chão a mascar folhas de coca. Armas de fogo portadas por insensatos poetas românticos que se
implodem sem mais poder. Armas brancas nas mãos das escravas brancas de Rimbaud, todas cansadas dos rifles e
dos bacanais descontextualizados. Eurípedes só chega mais tarde, está preso no tráfego da Rio-Niterói; agora só anda de ônibus em prol da camada de ozônio, abram a champanhe e convidem aquela moça solteira para cá — todos a desenharemos
nua no centro da sala
no Louvre
pediu dois maços de cigarro e um incenso divino,
são muitas línguas as de vocês
todos a me perturbar ao mesmo tempo.

III

Isso tudo tem o gosto da Paranóia que se enrosca nos seus cabelos, milhões de caminhos microscópicos em direção à Costa do Marfim das manchas que salpicam seus ombros. Eu sou um risco branco em cima do cartão de crédito, pronto para
morrer de inanição e ser
inalado nos bancos dos
megalomaníacos jardins
secretos
— senis
bandas de jazz ressoando
no seu ideal de amante.

IV

Pronto para ser entronado rei da Suécia dos seus dedos, ganhar o Nobel de Literatura, meu escopo são duas folhas de rosto
em que escrevo
a lista de compras
do mês de Novembro;
me desculpo e, à francesa,
tomo a Bastilha do sumiço.

24 August, 2008

Noventa mil lírios (reciclagem)

Debruçado sobre uma pilha de jornais velhos, procurando seu nome abaixo das fotos, Vicente Tavares repetia o próprio nome, como se o conjurasse. Os papéis amarelados caíam pelo assoalho formando um estranho tapete de palavras negras, em um silêncio quase completo, perturbado somente pelo sussurro débil do homem.
Aconteceu na semana revolta que se estende entre o Natal e a virada do ano; o ano de 1993. Trancou-se em casa, disposto a esquecer todas as outras casas que a circundavam e encontrá-la. Buscava hesitante, a voz tremulava de tempos em tempos, fazendo-se quase inaudível, mesmo para ele. Os olhos, um tanto marejados pela poeira acumulada nos papéis velhos, percorriam nervosas as páginas, sem esperança.
“Vicente Tavares, Vicente Tavares”. Percorria-lhe uma certeza quase dolorosa, uma afirmação que o deixava constantemente à beira de qualquer coisa e nada. Como um imenso vaso de vidro, cheio de água, na beirada de uma mesa cambaleante. Às vezes largava seu bizarro ofício de lado e mirava pela janela, acometido por acessos de profunda tristeza. Sentia seu rosto quase sexagenário derreter quando olhava por entre aqueles vidros imaculados, como se suas feições líquidas e quebradiças tomassem formas indistintas; colocassem-se ao contrário, do avesso, de ponta cabeça. Então corria para o espelho e certificava-se de que suas rugas, como leitos de rio secos, ainda corriam em direção ao peito.
Da janela nada que inspirasse profunda tristeza saltava aos olhos; casas, um pequeno campo tomado por pedras acinzentadas com uma montanha ao fundo, castigada por um incêndio recente. Se porventura alguém observasse essa paisagem pelos mesmos vidros imaculados − e não pelos olhos − de Vicente Tavares e buscasse nela a fonte de seu silêncio e reclusão, não a encontraria. Nem mesmo a montanha ao fundo, com suas cicatrizes carbonizadas, inspiraria pena tamanha. Contudo, o homem olhava, e sentia seu corpo fraquejar; então se tornava forte e voltava aos jornais velhos.
No dia anterior, enquanto tomava metodicamente o chá das quinze horas e perguntava-se por que nenhum de seus filhos havia se preocupado em visitá-lo após dois dias ignorando os gritos do telefone, Vicente Tavares imaginava se a última pose do último rolo de filme de ’93 seria como a do ano anterior; um auto-retrato, em pijamas, com os cabelos desgrenhados e olheiras profundas, inexpressivo. Vasculhou a memória em busca de ’91, ’90 e ’89, deixando-se levar pelos fios brancos por entre todos os últimos retratos deprimentes de fim de ano.
“O do ano retrasado é um pouco melhor, não pareço tão velho”, pensou em voz alta, invertendo o tempo das rugas no rosto. “Noventa e um, noventa e um…”. Havia sido um bom ano − “Muito trabalho” −, lembrou-se de uma passeata, ou uma manifestação de algo, com jovens universitários correndo em disparada como animais assustados. Em algum lugar estavam também as fotos das atrizes famosas que reconheciam em seu nome algo célebre, quase mítico. “Um bom ano, noventa e um…”, esquecendo-se de Vicente Tavares. Ali o ano nunca terminaria com o chá, já frio. Todas as atrizes conheciam seu nome, todas as passeatas desfilavam ante seus olhos. Era outro, noventa e um…
Quando voltou a si, a noventa e três (quando bem poderia ser oitenta e sete ou setenta e nove), despertado pelo estridente telefone, levantou-se da poltrona lentamente, sentindo todos os ossos do corpo gritarem junto ao aparelho e talvez junto à pessoa do outro lado da linha. Caminhou até a cozinha, lavou a xícara, guardou a caixa de chá e, ao trocar a água do vaso de flores, percebeu o perfume de lírios invadindo-lhe as narinas para perturbar a memória. “Noventa e um…”. Veio-lhe uma fotografia à cabeça, como às vezes acontecia. A rua central de uma cidade enevoada, talvez a capital, passado um tumulto qualquer; uma paisagem quase desértica, quase desfocada, mal enquadrada. Era um retrato de todas as cicatrizes de Vicente Tavares, como às vezes eternizava. Era a completa desolação, um auto-retrato inexpressivo de si mesmo, o ano de ’91 lhe contando segredos sórdidos. Não queria ouvir.
Enleados, os fios brancos carregaram o vaso até a mesa; os lírios um tanto murchos, quase derretidos, haveriam de carbonizar todo o resto que ardia lá fora com a montanha.
Debruçado sobre uma pilha de jornais velhos, Vicente Tavares repetia o próprio nome, como se o conjurasse. A semana, quase no fim, lhe dizia que mais um ano se encerraria, abrindo-lhe todas as feridas novamente. Confundiu os próprios cabelos e abandonou no rosto toda a expressão da vida. “Noventa e três…”. Fraquejando, derrubava todos os lírios do mundo, inundando os rios que corriam em seu rosto; leitos intermináveis em direção ao próprio peito.

17 August, 2008

God only shoots in the morning

Por que pela manhã os filmes, quaisquer bons filmes, sofrem a invertida
catarse
de macular todos
os maus agouros do dia anterior?
Acumulam-se num avesso estranho de vida, entre a bruma do primeiro cigarro, entre os livros atirados na cama
— meus únicos amantes fiéis
entre as canetas, os pratos sujos
e os copos com perfume
de uísque velho.
Há uma condenação cósmica aqui além do meu entendimento das nobres verdades?

Será porque a TV realmente
está infestada de vermes diabólicos
como me contou meu amigo mórmon?
Será porque, ao contrário do que prego
no alto do mais alto farol,
vivo pela metade? Não há oito,
oitenta,
vivo eu em 44 rotações por minuto
como um velho disco de Willie Dixon? Foi de meu tio, esse disco,
meu tio que já morreu, cujo filho se engravatou
de início,
com a mesma gravata cor de vinho do pai. Terá esse negro LP a alma encarcerada de um tio que dança seu boogie macabro entre as linhas da vitrola e as linhas de transmissão da alvorada?

Se se apaixonam, eu sofro as recaídas. Ligo para todas as que machuquei e peço perdão.
Se a vida é vazia num subúrbio da Califórnia, o problema é meu; a caçarola de cozido também.
Se têm filhos, é da minha conta bancária que debitam as expensas da maternidade.
Se almoçam todos os dias no La Copoule, quem engorda sou eu.
Se assassinam sem piedade, eu sinto remorso. Por que matar sem a razão Maior, aquela que não existe?
Se tomam drogas, a reabilitação é por minha
conta.
E se negam a existência de Deus, não há salvação para minha alma

      Pela manhã meu peito é mais aberto às intempéries de uma chuva
                       cinematográfica
                                 em Nova York.

E se eu tomasse do celular
que apita ao meu lado
uma mensagem pornográfica de telemarketing
e ligasse para o pastor que promete vida fácil no canal 9? Diria ele que há um diretor frustrado
nas rebarbas do meu espírito? Um encosto Buñuel, um exu Kurosawa, a
pomba-gira de Kieslowski,
a maria-padilha de Fritz Lang?

Meu amigo cineasta só me
atormenta
pela manhã, com seus
mil tentáculos invisíveis
— todos em 8mm.

                                 E se durmo demais
                                 faz questão de rodar mesmo assim.
                                    Pede silêncio, diz ação e
                                    deslumbra a platéia dos meus fios de cabelo.

9 August, 2008

Glasgow~Havana

Arranquei de todas as paredes todas as foto-memórias e me mudei para Glasgow.
                           Se eu morrer um dia, que seja em Glasgow.
                                                    Juntei alguns trocados valiosos lavando pratos para gentes podres e ricas, inaugurei a Thornton Heath Bookshop junto a três outros exilados etíopes.
O quarto, mais cabeçudo e dotado de um ódio mortal pelo idioma inglês,
marchou até um subúrbio da capital do Reino e
abriu uma casa de computadores. Lá os exilados ligam para suas naves-mãe contando as diversas peripécias nesta terra de infiéis e rezam quatrocentas vezes por dia, seguindo
um horário divino
diferente dos
dos trens.

Todos os dias sonho com Cuba, concubinas, espelho côncavos na palma das mãos esbranquiçadas
das negras irmãs imaginárias
— tão longe, na Etiópia
dos meus sócios pernilongos. Penso em suicídio enquanto as minhas mãos envermelhecem no frio do uísque escocês no Fishermans’ Arms. Os etíopes sonham com homicídios culposos na minha queda da escada mais alta, rodando degraus abaixo até a pilha infernal de livros ainda-não-catalogados no inventário.
Juram que a Arca da Aliança se esconde num mosteiro em sua terra distante. Milhões de fiéis acendem velas dos navios dos crânios de outros fiéis que desperdiçaram suas vidas em meditação Divina.
Quando penso em me jogar, de fato,
das escadas milenares,
algumas ainda romanas,
Scorza me puxa pelas mangas do casaco surrado por demoníacos monstros da neve e me conta histórias sobre o Popol Vuh.
                                           ‘Montaigne e Descartes defendiam que o americano era o tipo de homem sem história.’
Que posso eu contra o orgulho dos etíopes?

Na bruma dos cigarros-consolos da Thornton Heath Bookshop,
penso em arrancar todo o dinheiro das
caixas-registradoras
e fugir para Cuba, traindo meus asseclas núbios
e suas irmãs de chocolate.
Lá abriria uma Caixa de Música, redobraria as milhares de peles das mulheres-volúpia, torraria a vermelhidão das mãos ao sol que circunda essa porção de terra cercada por outras porções de terra,…
                                      Ninguém pode ser feliz enquanto um próximo sofre, não há ilhas de alegria num
             oceano de Miséria.
…roubaria Cadillacs velhos para justificar quaisquer coisas, tocaria flauta para os peixes e para as filas que não existem em Havana e
rezaria mil e cinco vezes por dia
seguindo um horário
diametralmente oposto ao
dos trens que não vão alugar
nenhum dos seus Deuses;
justamente na hora em que
as linhas estão todas congestionadas
pelas emissões das naves-mãe.

2 August, 2008

Ótica (uma semi-resposta e uma condenação)

Não há contradição; depende da significação das palavras. Por que não tendes uma palavra para cada coisa?
— Livro dos Espíritos

Quem é teu Deus de Nada para o qual não há
o Eco de si mesmo? Quem de nós escolheu,
escorado na pilastra da padaria que abre mais cedo,
seu significado mais arcano? Estávamos todos bêbados
quando vimos o Canário Sereno
cantando na praia de ressaca.
É doce morrer no mar, diz Capitu
tornada maria-gasolina.
Hip-hop desvairado na curva da luz pisqueira
da boate dos mil dourados.
Teu Deus não dança,
é um maquinário sem Graça de quântica particular,
todos seus átomos desgastados pelo Eterno Retorno,
sem nenhum valor agregado
para revender na Concessionária do Apocalipse.

Quem é teu Deus que proclama um só caminho
sem volta para as rolinhas que se amontoam
no pátio da escola? Não há Incômodo nessas penas:
                               — ou voam
                                                ou voam
                                                          ou voam.

Não há semântica para as rolas, são todas aves sem nome, perseguidas pelos gatos sem nome, alimentados também pelos nomes dos homens e pelos duplos sentidos dos dentes dos pobres a rir das piadas na TV. Os números não mentem, veja bem… Não privarias os pobres de seu único sossego, certo? Cada coisa, um nome; Crátilo arruína-se e se joga de um penhasco depois da garrafa de uísque. Cada coisa, um nome; teus contemporâneos já se comunicam por telepatia. Rola continua sendo uma ave e uma idéia suja na cabeça dos taxistas que se divertem no ponto final.

Machado de Assis decepa os punhos por pura ironia.
Golpe final, quem é teu Deus que não permite sinônimos?
Não quero mais “poesia”, quero “versos”, que me impede? “Fonte romana”, “asa de 737”, “bomba atômica”, “reverberação”, “Paramaribo”, “tiroteio na esquina”, “chope”, “chave”, “chuva”, “chinfrim”, “chicote”, “chiclete”. Teu Deus me entenderia se trocasse “estrambótico” por “tua BMW coração cor de tartaruga”?

28 July, 2008

Divida

à Cinnamomum Verum

I – De flores

Se flores fossem
               realmente flores, seriam
                                 — todas teu nome
tranqüilo de nuvem que são
vento nas flores do alto.

              Não teriam outro afazer
                           a não ser
                                     serem flores
tranquilamente teu Nome na boca
                          do alto
                          das nuvens
                                 em que
                                         flores

                                                   têm o nome que
                                                              você escolher.

II – De cores

Dê cores às palavras de cor
    de imensidão
                           — porque
                          estas ficarão
rondando tons do vermelho
                  para o que você quiser dimensionar
                  para além do maior céu azul
                  lado de cá do coração que do meu nome
sabe o início
                                                         mas nunca viu fim.

III – De janelas

Empilhadas umas
                      às
                      outras te veria
Não fosse a lua e
                o eclipse no centro das estrelas
                da memória do amanhã
                que atrás de nós persegue
                o passado lá
                                     — fora emoldurado
nas estrelas a única bela paisagem noturna
                                                        de eclipse
                                                           de sol e
                                                          infinitas janelas
                                                       empilhadas
                                     — no escuro.

IV – De passos no branco

Se eu fitasse por horas um
     espelho seria tanto mais
     eu fitando suas horas de
     espelho fitando nossos
passos que saltam de um espelho só
a nos fitar dançando entre nós e
                                          nós.

V – De mares

Galerias inteiras, vitrines intactas
de água e onda dizendo
                                 — sob os bulevares de vozes
de barcarolas que
é doce o barco n’água, que
meu barco sozinho não é nada
e a areia desse mundo não sustenta
um grão de si mesma sem o cântico
feliz de quem canta por
que sabe onde ancorar.

VI – De Verdade

A Verdade corre, salta de umas às
                                          outras mãos,
sempre se nos escorregando sem saber
que mesmo no escuro, não se pode
                                                        escapar
de duas mãos entrelaçadas.

23 July, 2008

Ideologia da Vítima

Não meço palavras; não construo nem desconstruo;
sou esfaqueado, enferrujado, me arrancam os olhos em golpes obtusos.
Não tenho alma, nenhum dos séculos me dará razão,
vítima dos sete outros de mim.
Despejo a negativa
no altar dos milhões de sacerdotes surdos
porque meu amor é um círculo
como não…
Não sou batuque, atabaque, sou branco como a noite em que todas as velas são acendidas nas ladeiras dos seus cabelos. Não, não sou, intransito nos verbos dos outros; desverbo, desvelo, desenredo, vítima de mim mesmo, capanga dos sete outros de mim.
Na tristeza das coisas invisíveis, parei frente ao totem — poste iluminado por fumaças-arabescos — e dancei um tango para o samba. Nenhum século me dará poder sobre mim, assassino de Ésquilos numa esquina de São Paulo, juiz de Wilde na Câmara dos Incomuns, subornos contra os olhos dos outros. Não sou eu mesmo e os milhares que me acossam, só eu posso testemunhar contra o pão com mortadela e queijo suíço de ontem à noite, o delírio do dizer muito menos do que gostaria para muito menos pessoas das quais gosto de menos, mas mais do que gostaria. Na noite das coisas indizíveis, desvairamento foi o nome que gritei mais calado enquanto me tomavam das mãos o ferro em brasa e o violino.
Gritaria, esferas do bilhar quântico — sim não sou além de um bilhar atirado no escuro, no rosto dos mendigos que lêem Joyce e sangram orações poéticas do cânon bíblico. O canto do seu olho acumula a poeira dos meus passos; não bebo, não fumo, não danço com os tigres cósmicos dos outros. Chego ao nada sem a filosofia barata de um Pessoa ou dos teóricos que indefinem os artigos antes dos nomes dos poetas. Um, dois, três pessoas alucinógenas que a mim nada dizem. Índios queimam seus cachimbos e combustíveis em garrafas de coca-cola em pontos de ônibus.

Manifesto em cinco linhas sua vida mais-que, a minha é a mesma, ao avesso:
ENTORPEÇAM AS CRIANÇAS DO PRIMÁRIO COM AS ERVAS DOS PRÉ-COLOMBO. TOMEM UM CHICABON ANTES DE DESLIGAR O CELULAR NO DOMINGO DE MANHÃ. MODELEM SEUS DUZENTOS QUILOS PARA UM ARTISTA DESESPERADO EM TRÊS HORAS DE COMPLETA IMOBILIDADE. OLHEM TORTO NO METRÔ, TOMEM TIROS DIVERSOS, CAPOTEM SEUS CARROS NA CURVA MAIS BESTA DO RELÓGIO.

Deus me deu a graça de não ser poeta por ser uma palavra estranha. Descambo a avenida num conversível à gasolina e prosa, levando a massa estranha de rostos derretidos comigo para dentro da noite do não fazer nada. A iluminação até lá é parca, os governantes não fazem seus trabalhos, vejam o tamanho dessas crateras no asfalto… Não é você, sou eu e Salvador Dali disputando peteca na praia do Leblon. Ele cospe nas velhas e se encanta com as prostitutas que se encantam com o bigode. Chocolate, Deus, tropicália. Não entendo porque não quero e estou bem assim, intransitivo; não te amo, nunca te amarei. Minha pátria é um pau-brasil morto na Sibéria, vencido pelo comunismo e pelo triste Miles Davis que chora na janela.
Não sou o cipreste radioativo que circunda sua mente, nem a névoa venenosa dos cigarros de Príapo. Não vendo, não compro, não faço artesanalmente nenhum dos meus sonhos-clímax-desespero. Quiseram assim, os outros vinte e cinco de mim.

Rajada de vento e cocaína nos olhos dos passantes, manifesto novamente — uma última vez — as verdades sublimes da Arte e das lasanhas de microondas:
NÃO HÁ NADA LÁ, O QUE VOCÊ VÊ É O REFLEXO DO RUÍDO DICROMÁTICO DA TV EM MILHÕES DE ESPELHOS DEFORMADORES. O HORIZONTE É A PIOR IMAGEM DA POESIA, SUPRIMAM-NA, ASSIM COMO AS PRÓPRIAS PALAVRAS POESIA-POETA-POEMA, ESSES NOMES QUE ASSIM AJUNTADOS PARECEM BICHOS EM VÔO. NÃO HÁ FILOSOFIA, É UMA GRANDE SACANAGEM QUE NOS PLANTARAM COMO AS MACONHAS UNIVERSITÁRIAS. SÓ JESUS SALVA, PRESIDENTE DO PLANETA DE MACACOS ADESTRADOS PARA SE REPRODUZIR SEM CONTROLE E SEM A NOVA-PALAVRA-QUE-INVENTARÃO-PARA-SUBSTITUIR-“POESIA”. MIMETIZEM A VIDA ATÉ QUE O CORAÇÃO PARE DE ESPANCAR SEUS PARES. TUDO O QUE SE ESCREVE É O FIM.

14 July, 2008

Telecine

Nunca deixava livros com a capa virada para baixo, mas chorava.
Chorava por tudo, chorava com um Woody Allen. Achava triste estar tão velho, tão velho nessa sinédoque às avessas, salpicado
de fotografias e filmes antigos.
Achava triste, deitada, vice-versa com as carnes todas repousando. Carnes vermelhas; não comia,
mas de todo suas entranhas eram tristes como um novilho ao abate.
E assistia a todos eles como quem pede os tapas, os socos, os arranhões.

Esse sentimento estranho de que alguém sofre em Sodoma ou na Cidade do Cabo.

Faroeste na escada do prédio,
corredores intermináveis até a cama.
Escuridão, palavras em inglês ditas tão rápido que a memória não grava.
The saint’s still cries at the end of time.

Não sabia o que fazer, nunca, com as capas
e os tapas que lhe davam os velhos dos filmes, até os engraçados.
Buñuel toma chá com Frida Kahlo no terraço. Toma sol,
lençol esmagado sob o choro, os gritos, os arranhões e as carnes
do jantar fraudulento à luz de velas.
Venenos em pequenas doses com os quais o assassino nunca será descoberto sob o plano em preto e branco, atrás da porta da cozinha.
O céu é transparente e santo.
O VHS desgastado até o fim dos tempos, a última tentação de um Cristo em NTSC, beijo no piche da carne escura do AV.
Perseguição desembestada até a explosão,
o espanto.

11 July, 2008

Tango alucinado na arena

Você é o Coliseu,
autoridade romana,
desmoronamento e intervenção das décadas.
Arcos reformados, pedra calcária, raiva e frustração.
Basílica de São Pedro, feita em grande parte do que você mesmo deixou cair
num terremoto em meio à queda do Império. Você é o Coliseu,
ervas e frutas exóticas que destoam da Roma daquela época. Foi fortaleza, foi depósito de estrume, foi terra natal, gladiadores, lugar assombrado, colunas decrépitas e clima Romântico. Inacessível ao público mitológico de escadaria do Velho Coliseu.
O que mais se destaca são as inscrições nas paredes,
grafites com nomes de senadores. Você é Mussolini, antigos imperadores apaixonados pelo poder no centro da arena e a multidão se reúne no mesmo lugar para comemorar a queda de você próprio.
Você é o crânio de um urso atravessado por uma espada, duas guerras, poder e força e ruína. Menos da metade de você está de pé e os sismos abalam sua estrutura.
Você é o Coliseu, espalhado pelo grande símbolo da Moderna Roma, o mínimo de respeito e o máximo de violinos ao redor. Vinho, poluição, o metrô. Seu risco é o ruído da vibração que conecta o abrir de sua alma ao dano e ao verão de tragédia grega.
Quem são os que a viram? O que há é o que se viu nos séculos em que mil e novecentos anos e quatrocentos anos de esplendor, mártires e sacrifício. Pena capital, ficção e curiosamente deslocada no antigo colosso de incontáveis significados; tempo.

8 July, 2008

Trecho de Nada, obrigado: “Minha sombra sumiu”

Minha sombra sumiu. A filha da puta simplesmente foi embora, e é incrivelmente amável comigo; deixou de ser, porque sumiu. De alguma forma, eu olhei a parede e a luz da TV estava lá, sozinha brilhando no branco, como se tivessem queimado um imenso buraco em forma de corpo em mim, com um cigarro de tamanho exato. Não entendo o porquê, se ainda consigo me refletir no espelho. Não sou Nosferatu, porra… Mas não tenho mais sombra, não deixo mais rastro da minha terceira dimensionalidade nas superfícies.
Que bom, sempre odiei aquela merda. Pretensiosa e monocromática, não a agüentava mais. Não entendo como ela simplesmente desapareceu. Vadia, pedófila, doentia. Vírus ridículo que não destrói seu hospedeiro nunca até que ele se destrua sozinho. E sempre tão amável, a filha da puta. Dou graças a Deus que desistiu para nunca mais voltar. Essa parede agora é branca, só branca, e eu ainda consigo me refletir nela. Como pôde me abandonar? Assim, do nada? Dou graças a Deus, vaca insípida. 






















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